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A ELEGÂNCIA DO COMPORTAMENTO

Pessoas... repostei o texto pq a Dee achou o autor e vi que o texto que eu tinha não estava completo. Portanto, está ele aqui, inteiro e com o nome do autor!

 

As pessoas geralmente se preocupam com a aparência física e se esmeram para mostrar uma certa elegância de acordo com suas possibilidades. Isso é natural do ser humano, tanto que muitas pessoas buscam escolas que ensinam boas maneiras. No entanto, existe algo difícil de ser ensinado pelo número reduzido de professores, menor ainda de alunos e muito pouco de praticantes e, que talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a Elegância do Comportamento. É um dom que vai muito além do uso dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

 

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais corriqueiras; quando não há festa, cerimonial, etiquetas, nem fotógrafos por perto: é uma elegância desobrigada. É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam, nas pessoas que escutam mais do que falam. E, quando falam, passam longe das maldades ampliadas de boca em boca.

 

É possível detectá-la também nas pessoas que não usam tom superior de voz. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É uma elegância que se pode observar em pessoas pontuais, que respeitam o tempo dos outros e seu próprio tempo.

 

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece. É cumprir o que promete.

 

Não mudar seu estilo apenas para adaptar ao de outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho, solidariedade e respeito. Sobrenome, cargos, jóias não substituem a elegância do gesto cordial e amistoso. Não há livro de etiqueta que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo e viver nele sem arrogância. A essência do comportamento não se aprende nos bancos da Universidade.

 

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural através da observação, mas tentar imitá-la é, no mínimo, simiesco. As pessoas de comportamento elegante falam no mesmo tom de voz com todos os indivíduos, indistintamente, não se alteram por motivos banais ou fúteis.

 

Ter comportamento elegante é ser gentil sem afetação. É respeitar a natureza divina do nosso corpo. É ser amigo sem conivência negativa. Ser sincero sem agressividade. Apresentar sua verdade sem alterar sua serenidade. Ser cordial sem fingimento. É ser simples com sobriedade. É ter capacidade de perdoar sem fazer alarde. É superar dificuldades com fé e coragem, é encorajar todo irmão com a força da fé, do estímulo e da alegria nos momentos em que as forças parecem extenuar-se.

 

É saber desarmar a violência com mansuetude e alcançar a vitória sem se vangloriar. Enfim, elegância de comportamento é o grau que se apresenta, não é algo que se Tem, é algo que se É.

 

Mestre Rogério Rigoni



Postado por: shaidehalim às 13h59
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A DANÇA DOS SETE VÉUS

Esses dias uma aluna minha falou que fez um curso de dança dos sete véus onde foi ensinado que cada véu precisa ter uma cor específica e deve ser tirado numa ordem específica etc e tal. Mito ou verdade? Isso confunde um bocado a cabeça das alunas, não é mesmo? Ainda mais quem está começando na dança do ventre, uma dança que tem referências folclóricas, modernas, fusionadas, e nunca se sabe bem ao certo o que é tradicional e o que não é. Afinal de contas, mal sabemos a verdadeira origem da dança do ventre!!!!

Fato é que os véus não fazem parte do folclore oriental, e muito menos os sete véus. A história mais divulgada é a de que a dança se originou com base na lenda de Ishtar e Tamuz. Segue a lenda:

 

(do site: www.rosanevolpatto.trd.br)

 

O mito diz, que ao obter a virilidade, ele (Tammuz) torna-se seu amante. Entretanto, ano após ano, ela o condena à morte. Na passagem do ano, época do Solstício de Verão, ele morre e vai para o submundo. Por ocasião deste evento, a deusa e todas as mulheres choram por ele, e isso ocorre no mês que tem seu nome, Tamuz ou Du'úzu.

Isthar e as outras mulheres ficavam de luto pelo deus Verde, até que ela empreendia a perigosa jornada para a Terra-do-não-retorno, a fim de salvá-lo. Lá suas jóias brilhantes lhe são retiradas, ao passar por cada uma das sete portas que guardam o lugar.

 

No final desprovida de suas jóias e forças deve lutar com sua irmã Alatu pela posse de Tamuz. Nesta versão, Isthar é considerada Rainha do submundo, pois como a Lua ela caminha por entre os mundos, o Superior e o Inferior. A perda de suas jóias em seis estágios é o equivalente à fragmentação do deus lunar e representa os seis pedaços noturnos que são tirados da Lua nas seis noites do último quarto.

 

Quando a senhora Ishtar faz sua descida ao Mundo dos Mortos, nenhuma paixão é sentida na terra e a esterilidade governa. Novamente, em seu retorno à terra, a vida e o amor são despertados.

 

Em tempo: na referência à dança do ventre, cada véu simboliza uma das virtudes deixada por Ishtar em cada um dos portais até sua chegada ao inferno.

 

Os 7 véus apareceram pela primeira vez por obra e graça Oscar Wilde, que, romanceando a passagem bíblica onde Salomé pede aos rei Herodes a cabeça de São João Batista, criou uma dança com sete véus para sua personagem principal. As primeiras aparições desta dança foram confirmadamente baseadas no romance de Wilde, portanto, passaram loooonge do folclore oriental.

 

E a dança de Salomé original? Vejamos o que diz a Bíblia:

 

Marcos, 6:22:

 

“Entrou a filha da mesma Herodias, e dançou, e agradou a Herodes e aos que estavam com ele à mesa. Disse então o rei à menina: Pede-me o que quiseres, e eu to darei.

E jurou-lhe, dizendo: Tudo o que me pedires te darei, até metade do meu reino.

E, saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? E ela disse: A cabeça de João o Batista”.

 

Dançou.

Ponto.

Que dança?

Onde estão os véus?

 

Após o relato escrito de Oscar Wilde, Salomé virou ópera, dirigida por  Richard Strauss. Na ópera, baseada no drama de Wilde, Salomé vestia trajes supostamente inspirados nas dançarinas do Oriente. Na verdade, nada mais era que uma visão ocidental do Oriente, tal e qual os figurinos utilizados pelas dançarinas de cabaré da Europa (baseado no que se imaginava que seria um traje oriental, carregado da sensualidade necessária para tal função... ou seja, bem diferente dos trajes tradicionalmente utilizados  pelos povos orientais).

 

 

Wilde, por sua vez, afirmou que a inspiração para a sua Salomé veio após ver uma exposição das obras de arte do artista francês (orientalista! Ops!) Gustav Moreau.

 

 

Achei um texto na internet (não consta o nome do autor), que define um pouco da visão de Salomé por Wilde:

 

 

A Salomé de Wilde é uma personagem extraordinariamente dual. Por um lado, Wilde acreditava que ela era a incorporação da sensualidade — ele contou que, enquanto escrevia Salomé, passava por joalherias nas ruas de Paris e contemplava como adornar sua personagem. Esse mesmo ser sensual era, para Wilde, agressivo e cruel, com uma libido insaciável. Ele imaginava Sarah Bernhardt no papel principal (no fim das contas, a atriz foi impedida pela censura francesa de interpretar o papel). Mas Wilde também vislumbrava uma Salomé divina e pura —imagem provavelmente inspirada por uma pintura de Bernardo Luini. Para Wilde, Salomé tornou-se a combinação de um ser sensual, infantil e divino somado à força destrutiva da natureza”.  

 

Quer algo que melhor retrate esse misto de pureza e sedução do que véus caindo do corpo da dançarina, desvelando seu corpo nu?  Ah, sim, na Bíblia a filha de Herodias (que nem o nome é citado!), apenas dançou e ponto. Mas para Wilde, ela se despiu, mostrando aos poucos seu corpo, a cada véu que a desvelava.

 

 

E quer algo que combine mais com esse contexto do que a dança do ventre? Sensual e ingênua, cada uma dessas nuances se revela nos movimentos dessa dança. E afinal de contas, as histórias bíblicas se passaram lá no no Leste. Enfim... a imaginação de Wilde era fértil e nos presenteou com uma belíssima idéia para uma dança igualmente bela. Mas sem nenhuma conotação tradicional, folclórica...

 Ok... saindo da literatura e voltando à parte prática da dança, a dança com véu como conhecemos hoje também é uma invenção não-oriental. Embora existam diversas danças com lenços (de diversos tamanhos e modelos) espalhados pelo Oriente e fazendo parte do contexto cultural de muitas regiões orientais, nenhuma delas se assemelha ao uso dos véus da forma belly dance que conhecemos atualmente, e que apesar de terem sido introduzidas no mundo da dança do ventre por uma bailarina egípcia, ela admite ter sido uma inspiração baseada na visão dos ocidentais, do processo orientalista, etc.



Portanto, as cores dos véus na dança dos sete véus é tão ocidental quanto à própria dança. Há quem as relacione com os sete chakras, com as cores do arco-íris, ou fazendo uso da cromoterapia etc e tal. Como uma dança não tradicional, ela abre espaço para que seja trabalhada ao gosto do freguês, não é? Eu costumo escolher as cores dos meus véus nessa dança de acordo com meu gosto pessoal, com a roupa que vou utilizar etc. Mas não acredito que existam regras para tanto.



Postado por: shaidehalim às 12h53
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A Estética Vintage no Estilo Tribal

Conversando com uma amiga de dança numa comunidade do orkut, resolvi que seria interessante abordar esse tema novamente por aqui. Quem tiver mais informações, por favor, comente. Quem tiver dúvidas, pergunte.
 
A estética vintage é algo que vem aparecendo com frequencia no Estilo Tribal. Vamos entender o que significa o termo vintage para que possamos compreender melhor os trabalhos que estão sendo feitos por aí - e que, algumas vezes, aparecem com uma nomenclatura nova e confusa.
 
Da Wikipedia:

Vintage é uma designação aplicada a colheitas de uvas, como para o vinho do Porto, em que as condições de produção, colheita, estágio e outros factores de produção contribuem para uma qualidade excepcional. A sua origem ou significado vem de vint relativo à safra de uvas e age de idade.

 

Denominam-se também Vintage os vinhos do porto mais especiais que se caracterizam por ter a capacidade de envelhecer dentro da garrafa, sendo pois um vinho do porto não filtrado que ganha sabores muito especiais com o passar dos anos.

 

O termo vintage foi acolhido pelo mundo da moda para designar peças que marcam uma época, como roupas ou acessórios.

 

Completo então a terminologia acima. O termo vintage foi adotado também pelo mundo das artes com a mesma finalidade: designar trabalhos que fazem uma releitura ( ou mesmo uma reprodução bem próxima do original) de épocas remotas.

 

No caso da dança, existem pessoas ou grupos, principalmente nos EUA e Europa, que dedicam-se a trabalhar com danças vintage como foxtrot, ragtime, cancan, charleston. A maioria focada em danças de salão. Segue um link interessante de um grupo que foca seu trabalho nessas modalidades:

 

http://www.vintagedancing.com/

 

Esse não é o único. Há muitos trabalhos do gênero espalhados por aí. Poderíamos então falar que os grupos que se reúnem para dançar o twisty no melhor estilo Baile dos Anos 60 também estão desenvolvendo um estilo vintage de dança e por aí vai.

 

No Estilo Tribal, de poucos anos para cá, vemos grupos explorando a estética (não as danças em si) vintage em seus trabalhos. O figurino e a música nos levam à periodos históricos marcantes. Podemos ver dançarinas de tribal com trajes de cancan, ou vestidas como as moçoilas dos anos 20, em seus vestidinhos franjados, tão típicos do Charleston. Já vi dançarinas buscando referências na estética das pin ups dos anos 40 e 50, nas dançarinas de cabaré dos anos 30, no estilo burlesque, onde a dança se configura de forma caricata, mesclada à esquetes divertidas.

 

No entanto, com raras exceções (bem bem bem raras!) a dança que se executa é o que já é conhecido como Estilo Tribal. Dança do ventre com elementos de outras modalidades (como flamenco, dança indiana,cigana,  hip hop etc e tal). Não se adicionaram ainda movimentos característicos de cancan ou charleston, ragtime ou foxtrot, nesses trabalhos de fusão. Lembrem-se que sempre existem as raras exceções. No geral, o que se vê de referência vintage marcante  está no figurino e estilo musical, e não nos passos de dança.

 

Esses trabalhos não configuram, portanto, danças vintage em sua maneira mais corriqueira. Mantém-se os padrões do Tribal com um novo figurino, musicas diferentes, mas os passos de dança não apareceram nas fusões. Tribal ainda é fusão e não uma dança vintage, por mais que se recorra à essa estética.

 

Achei uma idéia brilhante. Adoro danças vintage. Dou aula de algumas delas (como charleston, cancan, jazz cabaré etc). Mas ao mesmo tempo, vi alguns equívocos grotescos. O principal é quando envolve o termo burlesque.

 

Então, vamos à uma definição de burlesque para depois explicar melhor aonde se encontram os principais equívocos.

 

Ok, começarei com um texto traduzido. Fonte: Burlesque et formes parodiques dans la littérature et les arts, Actes du colloque de l'Université du Maine, Le Mans, 4/7-12-1986, Seattle: Papers on French Seventeenth Century Literature (1987); John D. Jump: Burlesque (1972)

 

 Como já postei esse texto por aqui ( e ele é bem grandinho!), vou citar o link (aqui mesmo do blog) onde tratei desse assunto anteriormente:

 

http://beladanca.zip.net/arch2009-06-07_2009-06-13.html

 

Agora eu completo...

 

Atualmente, ouve-se muito falar de burlesque... novamente. Na grande maioria das vezes, o termo burlesque está associado aos shows de strip-tease com caráter cômico. As dançarinas não chegam a ficar nuas completamente, fazem uma graça, um jogo de mostra e esconde.. uma sedução às antigas.

 

Hoje em dia há um grande movimento de resgate do burlesque nos EUA. Há festivais específicos para isso... segue um vídeo de um dos maiores festivais que acontecem por lá atualmente:

 

http://www.youtube.com/watch?v=OjUREMzVzfk

 

Aqui no Brasil ainda estamos engatinhando nessa modalidade. Mas, devagar e sempre...

 

No Estilo Tribal americano surge um movimento de trazer esse caráter burlesco à dança tribal. Alguns grupos entenderam o sentido da coisa e passaram a montar esquetes onde associam dança à interpretação teatral cômica. Bacana! Mas tem gente entendendo tudo errado e achando que basta vestir um figurino estiloso e dançar tribal com uma música antiguinha. Um pouco de estudo sempre vai bem.

 

Sem a comédia, ou sem o strip-tease, como o burlesque se tornou mais conhecido, não há burlesque. Não precisa ser os 2, mas ao menos uma dessas possibilidades já daria um ar burlesco à performance. Não basta a música e o figurino. Até porque, apesar do burlesque ter nascido por volta de 1600, e se fortalecido mais adiante (tanto na literatura quando nas artes cênicas, como teatro e dança, principalmente, conforme o texto acima, nos EUA) , tornou-se algo atemporal.

 

A idéia do burlesco que ficou para nós hoje, independente da época em que se faça um trabalho abordando essa temática, é a do escárnio, é exatamente fazer graça com aquilo que, teoricamente, seria sério. Caras e bocas sensuais? Sim, mas de forma caricata, exagerada... Ou usar pose de moça ingênua enquanto tira a roupa. Buscar o controverso, o avesso, o disparado...

 

Temos um exemplo dentro da dança do ventre, muito recente, por sinal, que foi a performance da dançarina Dondi no espetáculo das Belly Dance Superstars, realizado no Folies Bergére, em Paris. Vestida de Marilyn Monroe, fazendo graça com seu cansaço ao ter que fazer shimmies e mais shimmies enquanto o músico se empolga na música, Dondi fez uma performance bacanérrima e burlesca. Gostem ou desgostem do desempenho da dançarina, ela estava dentro da proposta.

 

Para deixar essa questão do burlesque mais explícita, vou linkar aqui um vídeo de strip-tease burlesco atual, um antigo (da Bettie Page, a maior Pin up de todos os tempos) , e de um grupo tribal que usou o burlesque de maneira bem bacana:

 

Fanny Spankings e Lexie Demure - http://www.youtube.com/watch?v=7F-vY4UagFI

 

Bettie Page - http://www.youtube.com/watch?v=JzNW7IBXL_A

 

Desert Sin - http://www.youtube.com/watch?v=cUTRjFBMEVw

 

Esse ultimo video é um exemplo de Tribal que conseguiu explorar muito bem as linguagens. Tem a comédia, tem o figurino, a música, tem até mesmo passos de charleston (faz parte das raras execções que citei lá no começo do texto). E tem a movimentação característica do Tribal. Bacanérrimo!



Postado por: shaidehalim às 18h51
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ENSINO DE RITMOS NA DANÇA DO VENTRE

Assim que entramos numa sala de aula de dança já estamos tendo contato com a música, não é? Pelo menos deveria ser. A música que usamos para fazer exercícios já serve para nos "acostumarmos" com uma nova musicalidade, no caso da dança oriental. Uma aula de dança do ventre tem nova cor, novo visual, novo cheiro, novos movimentos e novo som ...

 

Infelizmente, muitas bailarinas simplesmente ignoram a importância da música por trás do exercício puro e simples...realizam os movimentos tecnicamente, ou por terem dificuldades em sua musicalidade natural, ou por nem se lembrarem da importância da música que está rolando lá atrás!!!

Eu não posso falar que o meu método é correto ou errado, mas posso dizer que vem funcionando nesses meus 15 aninhos de estrada na dança do ventre (11 deles, lecionando). Também não acho que seja possível comparar métodos, pois cada professor vai criar sua aula baseada em seu repertório, e daí vai tirar aquilo que é melhor para si e para seus alunos.

O meu método eu aprendi ainda na minha adolescência, com meu professor de piano. Diferente dos outros professores, que costumam dar logo de cara o ensino da leitura da partitura e exercícios intermináveis para a agilidade dos dedinhos, ele me colocou para tocar uma música. E devo à ele o meu conhecimento musical não só no piano, mas este que aplico com minhas alunas de dança!

Portanto, há quem acredite que decorar nomes e associar aos ritmos seja o método mais eficaz para o aprendizado destes. Eu prefiro sentir. A teoria é muito importante e será de grande valia, mas eu acho que ela é melhor aproveitada depois que a música já se entranhou na alma.

Portanto, antes de qualquer coisa, eu tento ensinar minhas alunas à ouvir a música. Para isso, eu utilizo alguns exercícios simples (que meu pai me ensinou - ele é médico e psicólogo - e também um maravilhoso pianista de jazz!) e, assim como fez meu professor de piano, eu boto elas para dançar...ouvindo a música. E para dançar nós nem precisamos de um repertório vasto ou técnica apurada - não esta dança, que serve para o reconhecimento da música e para deixa-la fazer morada em seu "corpo/alma".

Agora, quanto à parte mais técnica desse método, eu costumo dividir em bloquinhos (também como aprendi nas minhas aulas de música lááá atrás): primeiro, no início, trabalhamos com cadência, ritmos marcados, fáceis de identificar (como, no caso da dança oriental, o said, o baladi). Depois vamos começando a nos embrenhar nos tempos e contratempos, daí vamos explorando os ritmos mais rápidos e os longos, aqueles onde podemos estudar melhor sobre ralentos, vemos quebras de ritmo, fuga do tema e retomada, mudança de escala tonal (que faz uma diferença enooorme na dança!!!), etc.

O nome de cada coisa vem a seu tempo: é mais fácil saber reconhecer para depois nomenclaturar...bom, eu penso dessa forma! Decorar e não compreender não adianta nada, não é?

Eu costumo ver pessoas falando coisas como: no ritmo tal utilize os passos tal e tal. Não acredito nisso! Movimentos podem ser adequados à ritmos diferentes, para tanto, acelere, ralente, pauseie, fraseie, estabeleça uma relação com o ritmo ou com a improvisação melódica. É variando que vamos descobrindo que nosso repertório, por menor que ele seja, pode ser usado de forma infinita.

Vou falar então de um sério problema de nomenclatura: com o estilo tribal, por exemplo, onde utilizamos ritmos de outras regiões, do oriente e do ocidente, a gente vai descobrindo ritmos exatamente iguais (sim, sem tirar nem pôr!) com nomenclatura diferente. Às vezes o ritmo varia só no andamento, às vezes nem isso. Portanto, compreender o que a música quer lhe dizer é mais importante do que decorar nomes à esmo.

Mas sempre é importante saber, para quem quer se tornar professora, a nomenclatura correta, a partitura, e tudo o mais que aparecer pela frente. Assim você terá maior bagagem para passar aos seus alunos e não vai basear-se somente na sua intuição, tem a teoria para apoia-lo. E achismo não é uma atitude lá muito interessante para alguém que quer ser um profissional, não é mesmo?



Postado por: shaidehalim às 12h58
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Coreógrafa alemã Pina Bausch morre aos 68 anos

Fonte: www.uol.com.br

A coreógrafa e bailarina alemã Pina Bausch morreu aos 68 anos em Wuppertal, Alemanha. Bausch, nascida Philippine Bausch, era diretora artística do Teatro de Dança de Wuppertal desde 1973. De acordo com o jornal alemão Deutsche Welle, recentemente a coreógrafa foi diagnosticada com câncer.

"Pina Bausch faleceu na manhã desta terça-feira no hospital, uma morte repentina e rápida, cinco dias depois de ter um câncer diagnosticado", anunciou a porta-voz do Teatro Wuppertal, Ursula Popp.

  • Federico Gambarini / EFE 

    As coreografias da bailarina, que estreou como coreógrafa em 1968, caracterizam-se por uma junção de teatro e dança moderna, refletindo sentimentos humanos como a tristeza e o amor.

    Entre as suas produções mais conhecidas estão "Komm tanz mit mir" ("Vem, Dança Comigo", 1977), "Keuschheitlegende" ("Lenda de Castidade", 1979) e "Viktor" (1986), ou "Café Muller".

    Parte dos trabalhos da companhia Tanztheather Wuppertal de Bausch tomou por referência países por onde passou desde a década de 1980. A Coreografia
    "Rough Cut" é dedicada à Coréia do Sul, por exemplo, e "Água", de 2001, é fruto da passagem da coreógrafa pelo Brasil.

    Em 2007 ela ganhou o Prêmio Kyoto, importante prêmio internacional de dança, em homenagem ao seu trabalho, rompendo a fronteira entre dança e teatro e estabelecendo um novo parâmetro da arte teatral.

    O trabalho de Bausch pode ser visto também no cinema, no filme do diretor Pedro Almodóvar "Fale com Ela" (2002).

    Desde setembro de 2008, o trabalho da bailarina e coreógrafa era objeto de uma
    biografia cinematográfica conduzida pelo diretor Win Wenders.



Postado por: shaidehalim às 12h42
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Nijinski - parte 2

Nenhum autor tinha que se inquietar com nada disso. Tanto que aquilo que era deixado à livre apreciação de cada bailarino e que procedia desse “fundo comum” (desse legado freqüentemente não questionado no seio do qual só era admitida uma “inovação” na medida em que esta não vinha transformar decisivamente o respeito à regra), não colocava de maneira nenhuma em perigo a legibilidade dos traços ditos “constitutivos” de tal ou tal balé.Insubmisso à regra a que seus antecessores haviam se conformado, e dando um salto certamente perigoso, do nomeado ao não nomeado, ao preço de uma violência da qual ele foi o primeiro a padecer (os “Cadernos” testemunham o fato), Nijinski experimentou manifestamente a necessidade de sempre continuar de outra maneira o diálogo e o debate - já engajados à tradição da qual ele procedia. A interpretação que ele produzia disso, assim como as inumeráveis implicações de seu gesto, continuam sempre a ser pensadas. Aviso aos amadores…

 

Se deduzirá do que precede que seja qual for a maneira pela qual a atividade coreográfica nos obrigue a repensar o conceito de “obra”(9), aquilo que a história das práticas coreográficas e o fluxo - freqüentemente ocasional, sempre impossível de antecipar - de sua transmissão evoca, não é evidentemente a “fidelidade absoluta” (necessariamente afantasmada, em nome de um imperativo patrimonial que cala seu nome ou o ignora como tal) à alguma “identidade” assinalável ou a algum “discurso de mestre”. E menos ainda a alguma fixação formal que seja (a obra “pura”, aquela que flutuaria em céu platônico, em um eterno éter de idéias).

 

Nem mausoléu nem museu. Não se expõe uma dança como se expõe um manuscrito, um quadro ou uma escultura. A esse respeito, já seria tempo de nos pouparmos à confusão interessada que nutre deliberadamente todas as ideologias da “Reconstrução” (usando a terminologia há muito tempo em vigor no campo da dança, terminologia que uma ortodoxia inutilmente fastidiosa e sem legitimidade repete a cada dia). Lembremo-nos antes que todo projeto artístico, por se destinar a nossas faculdades de percepção e de elaboração, precisa que em retorno nos interessemos pelos processos de produção que os tornaram possível e pelas questões que esses mesmos processos apresentam de um lado e outro. É isso, e só nisso em que se constitui, hoje como ontem, o horizonte de exigência conveniente às práticas críticas as mais dignas de serem nomeadas “artísticas”. “O regime estético das artes não começou com decisões de ruptura artística - nos lembra Jacques Rancière. O processo começou com decisões de re-interpretação daquilo que faz ou de quem faz a arte. O regime estético das artes é em primeiro lugar um novo regime do relacionamento com antigo(10)”.

 

Esta tarefa, por ser imensa, não pode ser delegada aos chamados, sempre um pouco rápido demais, “especialistas”. A esse respeito, os guardiões de uma tradição dita da “escola” não têm nenhuma legitimidade ao pretenderem o monopólio dessa tradição - salvo se a deixemos a eles - onde ela está manifestamente esgotada.

 

Em outras palavras: as questões que não param de nos legar a longa história da “divisão do sensível” (para continuar com Rancière) não devem continuar a ser a propriedade somente daqueles que se autodenominam ou se erigem sempre um pouco rápido demais em “herdeiros legítimos”. Muito ao contrário. Ela deve pertencer a todos que experimentam a necessidade de pensar sobre ela, a quem quer que esteja em condições de se apropriar singularmente delas, ou seja, de colocá-las no trabalho como Nijinkski mesmo o fez a seu turno.

 

Continuando, relancemos agora os des… e visitemos Mallarmé.

 

Mais precisamente o Mallarmé de “O entardecer de um fauno” (o poema que dá nome ao primeiro projeto coreográfico de Nijinski). Que trabalho ele reconhecerá como seu no horizonte desse texto em que ele trabalhará por mais de vinte anos? Alain Badiou, na leitura que fez desse poema nos propõe a seguinte hipótese:

 

“A questão não é mais saber o que aconteceu. A questão é tornar real um acontecimento desaparecido e impossível de decidir”(11).

 

Eis o que a sua maneira, sempre exemplo de singularidade, Pina Bausch de A Sagração da Primavera, o Ono Kazuo de Homenagem à Argentina, o Steve Paxton de “La Bayadère” ou, mais próximo de nós, o Jérôme Bel do Le Dernier Spectacle tiveram a generosa exigência de entender, e de nos lembrar. Possam os ventos ser favoráveis àqueles que, amanhã, continuarão a caminhar sobre tão incertos - e por isso desconcertantes - passos de Nijinski.

 

1 “O entardecer de um fauno”, 1912 “Jogos” e “A sagração da primavera”, 1913. Em fim “Till o diabrete”, 1916.

 

2 Um catálogo foi publicado para a ocasião em colaboração com a Dans Husset de Estocolmo que igualmente co-produziu a exposição. Lembramos que em 1990, o Museu Seïta havia apresentado uma outra exposição sob a responsabilidade de Françoise Reiss (a primeira a ter dedicado um estudo importante, mesmo que hoje meio antigo, sobre a vida e a obra de Nijinski - cf. nota 7 abaixo). Havia sido igualmente publicado um catálogo apresentando a mais bela soma de documentos fotográficos dedicados a Nijinski jamais reunidas na França até então. O catálogo é intitulado “Nijinski, um deus dança através de mim” e pode ser encontrado na excelente livraria Bonaparte, em Paris, Rua Bonaparte, 75005.

 

3 A esse respeito, se revela exemplar pelo defeito, o lamentável “documentário” assinado por Hervé Nisic e apresentado no contexto da exposição. Do “kitsch” da interpretação ao vazio do projeto, ele conjuga erros históricos em cascata… Bravo, bravíssimo!

 

4 Laban fala assim de “Schriftanz”, e não de Tanzschrif”. Eu remeto ao leitor, a respeito do status daquilo que se chama uma “aparição”, nos termos apaixonados do debate que “opõe” Nelson Goodman (cf. “A linguagem da Arte”, Ed. Jacqueline Chambon, col. Rayon Art, Nîmes, 1990) e Gérard Genette (”A obra de arte 1, imanência e transcendência”, Ed. le Seuil, col. Poética, Paris, 1994). Quanto a Nijinski, uma carta endereçada ao compositor Reynaldo Hahn atesta explicitamente o interesse que ele tinha pela transcrição de suas obras: “Eu trabalho, eu componho novas obras e aperfeiçôo o sistema de anotação da dança que eu inventei nesses últimos anos. (…) Essa anotação é indispensável para o desenvolvimento da arte da dança. É um meio simples e lógico de escrever os movimentos. Em uma palavra, esse sistema para os artistas da dança, prestará o mesmo serviço que as notas musicais para os músicos.”

 

5 Pensamos sobretudo naquelas mantidas na Suíça pela Condessa Liliane d’Halfeldt, legatária de uma parte da coleção consagrada a Nijinski e reunida por Serge Lifar, assim como as de Tamara Nijinski nos Estados-Unidos, ou ainda as diversas peças ainda não estudadas e conservadas na instituição onde Nijinski foi internado na Suíça.

 

6 Walter Benjamin, “A obra de arte na hora de sua reprodutibilidade técnica”, Art Editions, nova tradução de Christophe Jouanlanne, Paris, 1999.

 

7 Jean-Christophe Bailly, “Da narrativa ao gesto”, Ed. Escola Superior de Artes Decorativas de Estrasburgo, 1998.

 

8 Jean Bollack, “Sentido contra sentido” entrevista com Patrick Llored, “La passe du Vent”, ed. 2000.

 

9 Quando Gérard Genette, no primeiro tomo de sua obra “A obra da arte”, opta por complexificá-la em relação a distinção estabelecida por Nelson Goodman entre os regimes “halográfico” e “autográfico” da obra, ele também inscreve sua crítica no quadro dessas duas categorias conceituais. Ora é, portanto a partir desse ponto que seria conveniente retomar para forjar um outro conceito de obra que permita pensar o que o gesto da composição coreográfica coloca em jogo. Tal trabalho ainda está por vir.

 

10 Jacques Rancière, “A partilha do sensível / Estética e política”, “La fabrique éditions”, Paris, 2000.

 

11 Alain Badiou, “Filosofia do fauno”, In “Pequeno manual de inestética”, Ed. le Seuil. col. A ordem filosófica, Paris, outubro 1998.C’est la première partie de son analyse, suivie le mois prochain d’un piqué dans les journaux intimes de Nijinski.



Postado por: shaidehalim às 11h33
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Enaltecendo meus ídolos: Nijinski - parte 1

Este texto é oferecido em português pelo Consulado da França no Rio de Janeiro.

Tradução de Neuriel Oliveira.

 

O crítico francês Christophe Wavelet revira os restos mortais do mito e propõe novas abordagens sobre sua obra. Esta é primeira parte de sua análise, que continua mês que vem com um mergulho nos Diários de Nijinski.

 

“Um contemporâneo não é alguém que vive no mesmo tempo que nós, nem alguém que simplesmente fala de questões “atuais”. Mas, sim alguém de quem reconhecemos a voz ou o gesto, que nos vem de algum lugar até então desconhecido e ao mesmo tempo familiar, alguém a quem descobrimos que estávamos esperando ou que nos esperava, que estava lá, eminente”. Jean-Luc Nancy

 

Vida “romanesca” abraçando os turbilhões da história, prestígio aureolar, encontros freqüentes com “homens remarcáveis”, fim trágico… Os detalhes conhecidos de uma vida inteiramente colocada sob o signo do fulgor foram relatados em várias obras de inegável valor. Todos os ingredientes estão reunidos para encorajar uma coreolatria que não acabou de se desenredar e para, precipitadamente, instituir um Nijinski “Herói e Gênio Sacrificado no Altar da Dança” (vê-se em letras de ouro no frontão da Academia). A esse respeito, a história não deixa de mostrar que o que deve acontecer, acontece… Entretanto, é este o Nijinski que queremos? Não mesmo. De jeito nenhum. O Patrimônio! Há lugares específicos para isso caro amigo! Quanto à análise crítica de sua obra, é preciso ser claro: ainda está por vir. Então, esperemos!

 

Quatro coreografias(1), apenas pouco mais de dez anos de uma carreira resplandecente é pouco para causar tanta confusão, diriam. Foi o suficiente para que ele se apropriasse - e com que intensidade! - de um legado histórico considerável. Apesar da brevidade sua carreira foi mais que o suficiente para ele redistribuir até a vertigem as linhas do sentido da tradição da qual ele procedia. E isso ao custo de um trabalho de interpretação até agora muito aquém de ter sido examinado como mereceria. Portanto, não desagrada a muitos se ele permanece moderno, e é disso que se trata.

 

Então, o que resta de Nijinski hoje? Uma série interminável de testemunhos, desenhos, esculturas, croquis, trajes, cenários, pinturas ou anedotas? Sim claro! Todos esses documentos existem. Vestígios. Aliás, é precisamente o que foi apresentado no Museu de “Orsay”(2) durante a exposição-inventário. E aí, obliquamente, aproxima-se o homem e seus pares. E como em todo documento, o interesse do que nos é apresentado depende estritamente do uso a que se destina. Abandonemos, portanto, ao seu triste destino os que só se interessam em fetichizar o infeliz Vaslav (já muito em desuso na função de clichê espinhoso que a historiografia dominante tenta em vão atribuir-lhe a muito tempo(3)). E para os que o embalsamamento ou o culto não quer dizer nada, é sempre lícito não se prender a um ato de consumo cultural tão fútil. Mas para aqueles que são a favor da “obra” (supondo justificar em grande parte toda essa agitação perto de um século mais tarde): onde ela está? O que aconteceu dos impulsos de intensidades insuspeitáveis antes dela e que se manifestaram publicamente em corpos no momento vivo de seus atos - intensidades que ainda nos cristalizam nomes como “A sagração da primavera” ou “O entardecer de um fauno?” O que resta delas?

 

A resposta se dá em poucas palavras. Para além dos arquivos (relativamente numerosos, mesmo que alguns continuem ainda inexplorados), Nijinski continua exatamente aquele que você e eu queremos que continue. Na medida de nossos desejos, certamente, mas também e, sobretudo, por gestos de anamnésia que em seu nome estamos dispostos a produzir.

 

De fato, por brutal que possa parecer a primeira vista, esta argumentação leva primeiramente em consideração o status daquele que em dança denomina-se ainda, sem receios de errar e a despeito de um século de repetidas crises, a “Obra”. O paradoxo pretende que a prática dita “coreo- gráfica ” - não importa em que época ou sob que latitude se situe - tenham quase sempre dependido exclusivamente de uma tradição do tipo oral (fazendo-se exceção às danças cultas da Europa das Luzes ou de algumas outras). Nesse sentido, uma dança não é um quadro, uma escultura, um desenho nem seu status é análogo ao de um filme, um disco, um vídeo, ou mesmo a um texto (raras são as exceções). Em realidade a “obra”, em dança, não perdura além da extensão de seu nome e na memória daqueles que a dançaram ou que, em determinada época assistiram ao acontecimento em que ela se consistiu.

 

Aliás, Nijinski sabia muito bem disso. Ele que depois de Beauchamp, Feuillet, Stepanov, e a exemplo de Laban e alguns outros, estava entre os coreógrafos - raros na história ocidental da dança - que sentiram a necessidade de estabelecer uma escrita que permitisse registrar o movimento dos corpos. Um sistema através do qual se pudesse “escrever” a dança (como se escreve a música), um sistema em que se pudesse identificar formalmente as propriedades constitutivas de um e outro de seus sucessivos projetos. Lembramos a esse respeito seu constante confronto com incomensuráveis dificuldades que se apresentavam a cada vez que tentava sistematizar suas intenções para transmiti-las aos bailarinos com os quais colaborava (tentativas que invariavelmente resultavam em cenas de cólera e de uma violência inaudita, ao se crer nos diferentes testemunhos dos mais próximos, sobre tudo os de sua irmã Romola). Esse recurso talvez lhe permitisse evitar sua dolorosa dificuldade racional. Mesmo assim ele daria a ao menos uma de suas composições, “O entardecer de um Fauno”, a possibilidade de ser elevada ao patamar de obra - no sentido em que a tradição artística, de todos os campos, convencionou dar a esse termo eminentemente problemático(4). Documento de uma perturbadora precisão, constitui hoje o único exemplo desse gênero a ter sido, graças aos cuidados de duas pesquisadoras, salvo do implacável esquecimento a que ele teria sido relegado sem este dedicado e paciente trabalho de interpretação. Outras partituras ainda adormecem em diferentes coleções particulares ou públicas, arquivos injustamente ignorados(5), abandonados, e que o tempo acabará por dispersar por falta de cuidados - relegando-os para sempre aos fatos esquecidos da história.

 

Posto, o problema continua. Pois o fato de a noção de “obra”, em dança, a essa altura ainda estar sujeita a caução, evidentemente traz conseqüências (férteis ou não, como alguns se dispõem a mostrá-lo).

 

Dispensemos por exemplo, alguns segundos de atenção (não precisa mais do que isso) à montagem de imagens assinadas por Hervé Nisic que, na exposição do Museu d’Orsay apresenta um momento de transição de uma “obra de Nujinski”, tendo em vistas sua próxima apresentação no “Grande Teatro” de Bordeaux. O atual diretor dessa companhia de balé (Charles Jude), de quem se descobre ter interpretado outrora esta dança (na qualidade de “primeiro dançarino da Opera de Paris”, nos precisou ele) e que no momento a ensina a dois de seus mais jovens aprendizes que, por sua vez…

 

Ora, o que temos aí sob nossos olhos? Uma “obra de Nijinski” - como nos indicava há alguns instantes o sobre-título e do comentário em “off”, todos argumentos de autoridade garantiriam, aos olhos do neófito ou do curioso, a autenticidade do processo apresentado? Quem será capaz de dizê-lo? Na verdade ninguém. É evidentemente aí que está o xis da questão.

 

Porém, não é difícil entender que tal questão nem mesmo se colocaria, caso se tratasse de uma obra retirada de outros campos artísticos - de um texto de Dostoïevski ou de Tolstoï, de um filme d’Eisenstein ou uma escultura de Tatline, por exemplo. Pois que o mais freqüente, na qualidade de depósito materializado, é que uma “obra” exista para ser reconhecida como tal. Nesse sentido ela é em si mesma sua própria referência. E por isso torna-se “tecnicamente reprodusível” em sua fase “moderna” (como Walter Benjamin soube melhor do ninguém indicar as implicações e as conseqüências em texto mil vezes comentado desde sua aparição)(6). Portanto, esse não é precisamente o caso da dança (ao contrário), pois o que ela divide com as obras “imateriais” da arte conceitual é precisamente o fato de não responder em nada aos critérios tradicionais da obra.

 

Todavia, os mais avisados concluirão que uma obra musical ou de teatro, da mesma maneira que uma “obra” coreográfica, chama atenção primeiro pela interpretação. A esse respeito eles acrescentarão, não sem justeza, que hoje não se encena mais tal madrigal de Monteverdi, tal fuga de Bach ou tal quarteto de Webern como eram encenados há trinta, cinqüenta anos, ou três séculos, (isso é válido também para tal fragmento do Mhabarata, tal tragédia de Eurípides, ou ainda tal peça de Shakespeare ou de Ibsen). Certo. Mas, portanto são sempre os textos de Monteverdi, Bach e Werbern, Eurípides, Shakespeare e Ibsen que continuam sendo encenados. E se nesse caso é conveniente não confundir a obra com as diferentes possibilidades de leitura a que ela potencialmente convida é porque a música culta ocidental está apoiada em uma tradição textual, aliás, inteiramente compatível com uma tradição oral (para o que muito raramente se chama a atenção). Isso faz toda a diferença.

 

Nesse caso então, o que é a “obra de Nijinski”?

 

Que não se enganem. Nossa intenção aqui não é de maneira nenhuma adotar um discurso de natureza legalista que rapidamente encontraria seus limites. Em realidade importa pouco, em último caso, se aquele que vemos transmitir esta dança seja inutilmente privado do apoio que lhe ofereceria a existência da partitura coreográfica que Nijinski tomou o cuidado de estabelecer pacientemente. Além disso, que nós o peguemos em flagrante delito ao fabular, em nome da “memória” que ele conservou da dança (em realidade, da idéia que ele se faz dela) não tem definitivamente nada de desqualificável em si. Não, o mais triste é antes de tudo a mediocridade artística dessa ficção coreográfica com pretensão histórica. O mais triste é esta ruína “kitsh”, boa somente para satisfazer as pulsões patrimoniais das leitoras bordelesas do “Figaro Madame”. O mais triste é dever constatar que aqui nada mais é motivado por alguma espécie de necessidade fecunda. Entretanto nos lembra Jean-Christophe Bailly, “a todo trabalho de interpretação das obras do passado convém reapresentar sua trama: interpretar é desunir, é devolver à criação aquilo que foi criado, é jamais escutar uma resposta, é ao contrário, reformular uma questão, reapresentar um dispositivo de dúvida e de aventura”(7).

 

É preciso insistir nisso: é sempre no presente de atos sensório-motores e do pensamento que os irriga que em dança nós fazemos existir as “obras do passado”. E isso ao preço do uso de uma intercorporeidade mais o menos fértil em si mesma…

 

A esse respeito, também nós, nunca deveríamos perder de vista o “princípio fundamental que exige que toda matéria já interpretada seja ela mesma também considerada como uma interpretação”(8).

 

Logo, a questão que se coloca poderia ser resumida nesses termos: como, em nome de um acontecimento - e levando em consideração o que ele comporta necessariamente de carga enigmática ou parcialmente impossível de decidir - fazer com que o acontecimento se produza de novo? Nijinski (e depois dele muitos outros) não se ocupou dessa questão de outra maneira que não fosse precisamente trabalhando-a continuamente, de corpo inteiro, ao preço dessa “travessia do caos” de que Deleuze falou de maneira inesquecível (caos do qual sabemos hoje - mas, o quanto? - o preço literalmente impagável que custou a Nijinski).

 

Assim, o que em realidade Nijinski inauguraria para seu século - sem que a maioria de seus comentadores saiba - não foi nada mais nada menos que um dos dois paradigmas de composição pelos quais a aventura da modernidade coreográfica não parou de se guiar (o segundo seria, evidentemente, a improvisação que, segundo a feliz formulação de Steven Paxton, Nijinski transforma em composição instantânea).

 

Antes dele (e disso esquece-se ou oculta-se muito freqüentemente), era sobre uma outra prática que se regulava o entendimento dessa atividade que se qualifica, muito paradoxalmente, de “coreo-gráfica”. A esse respeito é conveniente lembrar que a primeira das tradições artísticas em que Nijinski se apoiou - a do balé romântico, tal qual havia se mantido viva, ou seja, alterada e progressivamente transformada no meio do Maryinsky e outros grandes teatros imperiais da Rússia Tzarista - implicava em um regime de produtividade (e portanto jogos de linguagem e das maneiras de fazer) cuja proposta não visava de maneira nenhuma a estrita definição ou cristalização formal de uma sucessão de movimentos, de gestos misturados, agenciados sob a forma de seqüências quinestésicas estritamente determinadas.

 

Os testemunhos que nos chegaram de bailarinos que colaboraram com Nijinski são no mínimo explícitos a esse respeito. Todos, de Sokolova a Karsavina, passando por Pavlova ou Ida Rubinstei, relatam de várias maneiras, o insuportável de um constrangimento até agora inteiramente inédito. Nijinski exigia que de fato fosse respeitada, quase nos detalhes, a menor de suas intenções formais. Intenções que se traduziam em tantas prescrições que ele tinha de superar uma dificuldade enorme para levá-las à linguagem. Entretanto, no seio dessa tradição que todos partilhavam (e isso incluindo até Fokine), não era de maneira nenhuma o caso do “mestre de balé” assumir um papel análogo ao que Nijinski, em nome de seu projeto, se atribuía. Convinha simplesmente estabelecer condições que a interpretação de cada dançarino devia satisfazer para que o respeito à integridade da “obra” fosse julgado satisfatório. Portanto essas condições elas mesmas dependiam estreitamente daquilo que todos tinham em comum precisamente: um contexto, um meio, caracterizado por uma cultura ao mesmo tempo quinestésica e uma estética codificada - dito de outra maneira, uma “escola”.

 

O que importava no trabalho do “mestre de balé”, o que engajava sua responsabilidade e o que definia, delimitando o campo de seu agir próprio, se constituía em estabelecer (ou, como se diz ainda hoje nas companhias ditas de repertório, a “regular”) trajetos ou percursos no espaço e no tempo, segundo um relacionamento ele mesmo regulado e perenizado na partitura musical de que cada dança dependia. E isso a partir do agenciamento dos movimentos tradusíveis em figuras devidamente repertoriadas e como tais nomeadas - figuras e nomes indissociavelmente integrados, desde a época da aprendizagem do “trabalho”, na memória corporal de cada bailarino.

 

Livre em seguida a cada um de improvisar - mas a partir das regras fixadas a título de existência desse código: tal ornamentação ou “movimento” de braços ou tal jogo de expressividade do rosto, ou ainda, de tal “liberdade” tomada na execução de uma dada figura.

 

 



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