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MSN - shaide2008@hotmail.com |
Nome:Shaide Halim
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Preferências:Dança, Música, Pin Ups e
Universo Vintage
Mudei o template... estava cansada do anterior...
Ainda faltam alguns ajustes, as cores das letras estão uma bagunça, mas aos poucos vou ajeitando a casa!
Em tempos de youtube, o que vem acontecendo com grande freqüência é ver que grandes artistas estão sendo cada vez mais imitados. Os imitadores, porém, alegam que usam aquilo apenas como referência de estudo (mesmo que o resultado final seja uma arremedo do original!), ou ainda justificam que não tinham outras formas de estudar se não pelos vídeos. Balela... a possibilidade de fazer sucesso pegando carona no sucesso alheio é geralmente o que motiva a grande maioria dos bailarinos que fazem de seu trabalho uma mera representação do que outros tiveram tanto trabalho em criar.
Muitas vezes, quando esse assunto é abordado, fica uma dúvida: estamos enquadrando nossa dança num padrão (imitando o criador sem dó nem piedade!) ou estamos seguindo apenas um estilo de dança (observando os fatos importantes apresentados pelo criador e adaptando-os ao nosso repertório pessoal, fazendo uma releitura ao nosso jeito) ?
Para buscar um estilo próprio, é necessário conhecer os outros... não apenas um, mas o máximo que estiver ao nosso alcance. Quando, ao invés de procurar padrões (moldes), procuramos criar um estilo próprio, com certeza vamos estar nos alimentando de estilos alheios para criar a nossa própria dança. Nos alimentando.. não sugando o trabalho de outro profissional como um parasita. Importante que isso fique claro.
Já vi muitas vezes pessoas executando coreografias inteiras, daquelas que são ensinadas em workshops ou vídeos, ou que estão no youtube, sem dar crédito aos autores. Infelizmente, para reivindicar direitos sobre obra artística, você precisa registra-la, o que vai dinheiro, burocracia,
blablabla. Cabe aí o bom senso de cada um.
Alguns, porém, acham que não estão sendo desonestos quando fazem adaptações na coreografia alheia, mas se esquecem de um detalhe “quase nada importante”: perguntar ao criador se ele gostaria de ver seu trabalho sendo reproduzido (integralmente ou em partes!). Ok, vai ser difícil contatar a família de Bob Fosse, ou mesmo falar com Gus Giordano... mas há artistas muito mais acessíveis (e nem estes são contatados... se é que um dia tomam conhecimento de que seus trabalhos foram imitados, é geralmente pelo mesmo youtube, onde anteriormente disponibilizaram sua obra para, em seguida, ser devidamente chupinhada) . E mesmo os inacessíveis, procurar um e-mail da assesoria, que seja, e explicar o que tem em mente, não arranca pedaço de ninguém. Se não receber resposta, paciência. Ao menos tentou-se manter o contato (e o informou de sua intenção...).
Classifico cópia de parte ou da criação integral de outro profissional como falta de ética, de respeito e de criatividade. De profissionalismo. Uma pessoa que se diz profissional e tem atitudes desse gênero não merece crédito. Usar pequenos trechos não é tão grave e, de mais a mais, é até possível que duas pessoas executem seqüências muito parecidas num mesmo trecho musical, mesmo sem ter conhecimento do trabalho do outro.
Isso é muito comum de se ver quando um aluno está iniciando seu processo de criação... buscar referências nas coreografias de seu professor ou de coreógrafos consagrados. Eu mesma já criei coreografias inteiras para que minhas alunas reproduzissem em suas apresentações individuais. Mesmo neste caso, dar crédito a quem trabalhou para desenvolver a coreografia é um ato de respeito ao artista criador.
Mas quando a cópia vem de alguém que se diz profissional, a coisa fica mais complicada. Não só quando a pessoa copia ou faz adaptações no trabalho de outra profissional (sem a autorização da mesma), mas também quando a pessoa se apropria do estilo pessoal de outro profissional da área (e perde com isso a chance de criar o seu próprio.. ok, isso aí é outra história... nem todo mundo tem talento para tanto e fazer uso do trabalho dos outros como muleta é algo mais fácil, não é mesmo?)
Todos nós carregamos em nossa dança, obviamente, algo de nossos mestres, mas a isso deve ser adicionado nossa pitada especial de personalidade. No entanto, sabemos que é muito comum que as pessoas prefiram buscar atalhos e copiar fórmulas prontas de sucesso. É mais fácil. Se uma bailarina obtém sucesso por seu estilo, aquelas que copiam acreditam que, seguindo à risca aquela fórmula, com certeza também estarão no caminho certo.
Pode até ser que isso funcione no mercado. Mas venhamos e convenhamos, assistir uma apresentação profissional (que fique claro!) onde a bailarina dança igual à outra (principalmente quando a original tem um estilo muito marcante e reconhecido) é, no mínimo, entediante. Ok, se for um show cover, quanto mais parecido, melhor! Mas aí a idéia de cópia está explícita e é perfeitamente aceitável (mais que isso, imprescindível!) Porém, quando o objetivo não é este, a graça da dança está exatamente na forma individual com que cada artista interpreta a música e passa, por meio dos movimentos, de seu repertório pessoal, seus sentimentos.
Infelizmente, o estímulo para seguir cópias fiéis é grande. Já presenciei professores de dança que querem que seus alunos sejam enquadrados em seus padrões, em seu estilo, que se tornem seus clones. Mesmo no caso dos alunos, que têm grande probabilidade de buscar inspiração em seus professores, é preciso desde cedo ensinar-lhes e dar-lhes a oportunidade de criar, de andar com as próprias pernas, de atribuir a sua dança seu próprio tempero.
É engraçado ver o quanto as pessoas correm atrás da fama no meio artístico! Ok, pra quem é ator/cantor e cai nas graças das grandes emissoras, das revistas de fofocas e afins, é algo natural que se diga "essa é uma pessoa famosa". Sim, pq bastou ligar a tv ou folhear uma revista e a cara do fulano(a) está lá! Sabemos até o que a pessoa come no café da manhã, qntos namorados teve e onde comprou suas meias e cuecas! Agora, quando não estamos tratando de celebridades da mídia (seja atores talentosos ou mulherzinhas que saem peladas na Sexy depois de uma temporada no Big Brother) , o que seria fama? No meio da dança... o que seria fama?
Faço parte de algumas comunidades sobre dança do ventre no orkut e vejo isso diariamente. Frases como fulana é famosa me soam de maneira engraçada. Famosa pra quem? Pra algumas centenas de praticantes de dança do ventre (na verdade, nem para todas, já que tem gente que faz dança e nem se dá conta do mundo ao seu redor, que não sabe os lugares da moda, as bailarinas da moda ou os estilistas da moda!)?
Lulu Sabongi (que eu admiro muito como profissional e tenho como amiga) é um dos ícones da dança do ventre no Brasil. Merecidamente, é bom que fique claro. Sem ela, talvez não soubessmos de metade das coisas que sabemos hoje, afinal de contas, a bichinha estuda pra caramba, dança pra caramba e se empenha em passar isso da melhor maneira às suas alunas. Mas pergunte para alguem do ballet classico se já ouviu falar dela. Certamente a resposta será não. Ah, claro ela já apareceu em alguns programas de televisão. Talvez mostrando sua foto a pessoa possa lembrar que já a viu em algum lugar. Agora imagine alguem que mal sabe o que é dança do ventre, se vai lá saber quem é Lulu Sabongi, o que é a escola X ou Y, ou o padrão de qualidade da casa Z!
Voltando às comunidades do orkut, alguém comentou que agora a moda é ir pro Egito e dançar no evento promovido dentro de um barco (ou mesmo nos festivais de dança que rolam lá todo ano... tem 2 bem conhecidos do povo desse meio!). Nossa, deve ser um must dançar no Egito, alguém pode estar pensando. Eu me pergunto qual a diferença de dançar lá ou aqui? Ainda se considerarmos que pra dançar no barquinho vc paga... idem nos festivais. E paga bem pago, por sinal!
Aí a fulana volta pro Brasil e mete lá no curriculo que é bailarina internacional... e que dançou n Egito! Ó que chic! Pagou por isso, mas quem vai saber? Pras primeiras marmoteiras que aplicaram essa tática, até deve ter sido válida, mas agora que a coisa virou moda e todo mundo faz a torto e a direito... que vantagem Maria leva? E o que isso vai realmente mudar a vida profissional de alguém? Alguém por acaso conhece alguma bailarina que virou superstar depois de dançar no barquinho egípcio? Só rindo...
Além disso, há uma outra tática para adquirir fama nesse meio. Baladas árabes. Você vai lá, se mata pra dançar com bandas de musica ao vivo, com músicas que vc desconhece, pq eles escolhem a musica e te jogam lá na arena. Com sorte vc pega uma banda boa, mas tem umas que são de chorar! Se vc já tem fama, vc ganha por isso... do contrario, não....eles estão cedendo o espaço para vc mostrar seu trabalho, oras! Fique feliz!
Nada contra dançar de graça... já fiz muita apresentação pra mostrar meu trabalho sem ganhar nada por isso... quando vou, vou de peito aberto, pelo simples prazer de dançar. Uma música, duas talvez! Agora, passar horas servindo de entretenimento barato para um bando de gente sem noção, que não faz a menor idéia do que é dança do ventre... nem pensar! E se vc não está dentro dos padrões (corpo de silfide, roupa carérrima e dançando as musicas da moda), vc corre o risco de nem olharem pra sua cara, ou ainda ouvir comentarios maldosos. Muito pior é quando vc nem ouve, acha que está arrasando, mas, no fim das contas, está é sendo alvo de chacotas. Afinal de contas, público de balada (com exceção das bailarinas que vão prestigiar as colegas), tá lá é pra beber cerveja, fumar narguile, dançar dabke e ver mulher gostosa, né não?
Claro que há lugares e lugares. Casas especializadas têm maior possibilidade de ter um publico que foi lá pra ver dança, e não pra encher a cara e babar na mulherada seminua.
Como sou chata e escolho bem os lugares onde vou colocar minha carinha, de graça, pagando e mesmo sendo remunerada para tanto, fico sem a fama ( ou melhor, ganho fama de arrogante). Mas, como diz minha amiga Malikat, eu sou lúcida! E é isso que me vale! Além de lúcida, tenho um pouquinho de vergonha na cara. Não tenho fama, mas me considero bem sucedida. Sou respeitada nos lugares onde danço... me poupo de ouvir bobagens... tenho um bando de alunas bacanérrimas e me orgulho de ver a evolução de suas danças. Muitas já são profissionais da área igualmente bem sucedidas. Outras, estão atrás da fama nas baladas, fazer o que? Cada um tem seu gosto e, se é o que querem, que sigam adiante. Há gosto e público pra tudo nesse mundo.
Meu trabalho não se resume à dança do ventre, e justamente por isso muitas vezes pareço um alienígena nesse meio. Fico sabendo dessas coisas e ainda me espanto. Minha formação em dança aconteceu de outra forma... gosto de palco, gosto de ter um publico realmente interessado na plateia... gosto de dançar e saber que estão ali apreciando minha arte e não apenas passando o tempo. Quero sucesso (leia-se ser bem sucedida no que me proponho a fazer) e não fama!
A fama passa... alguém lembra quem foram os membros do big brother 1? Alguém sabe quem foram as garotas do fantástico dos anos 80? Alguém sabe o nome das chacretes?
Mas pergunte ao mundo quem foi Nijinski, Isadora Duncan, Ana Botafogo... talvez nem todos saibam, pq dança (artes em geral) é um universo à parte, só quem está no meio é que se interessa, infelizmente....ao menos no Brasil, onde se valoriza tão pouco a cultura. Mas com certeza, no meio artistico, todos saberão...pq sao pessoas que deixaram sua marca, fizeram um trabalho que merece ser propagado... Assim como Paulo Autran e Fernanda Montenegro serão eternamente louvados, enquanto a maioria dos atorzinhos de Malhação cairão no esquecimento, depois de fazer mais uma ou duas novelas, alguns comerciais e uma dezena de participações em bailes de debutante!
Resolvi falar sobre esse assunto após ter sido chamada de DEUSA SHAIDE numa comunidade. Adorei o carinho, obviamente, mas vieram outros comentários além desse, sobre estarem surpresas de eu participar da comunidade, trocar informações e mesmo falar besteira. Como se eu não fosse igual a todas as outras pessoas, pelo simples fato de ser relativamente conhecida no meio da dança (digo relativamente pq tem gente pra dedéu dançando, e esse negócio de ser famosa é tão tão tão relativo, que daria um outro bom post aqui no blog!) Isso me fez parar para pensar o quanto as bailarinas de dança do ventre vivem numa aura mítica que as transforma em seres extra-terrestres! Bailarinos, em cena, são quase que como entidades de outro mundo. Compreendo muito bem essa premissa, afinal de contas, quando subimos num palco estamos lá justamente para estimular a mente do público a viajar por novas sensações. Mas porque na dança do ventre temos que desvincular a humanidade da bailarina em tempo integral? Em meus quase 30 anos de dança posso afirmar que a dança do ventre é a única que tem, digamos, "regras de conduta" impostas pensando neste objetivo (tornar a dançarina um ser não-humano), que seja extensivo ao momento em que estamos fora de cena. Ou seja, a bailarina deve continuar na imaginação do público como uma odalisca das mil e uma noites, uma fada, uma deusa. E por isso há esses tipos de "restrições" que costumamos aprender junto com a dança... (bailarina não bebe, não come, não fuma, não fala com ninguém depois do show, nunca pode ser vista sem estar impecavelmente arrumada e outras cositas más que já ouvi por aí!) Eu particularmente acho que cabe um pouco de bom senso de cada um. E há um limite nos dois extremos. Essa história de querer que a bailarina seja um ser etéreo pode ficar muito boa na teoria, mas na prática é um tanto quanto complicada. Simplesmente porque não somos. Ponto. Somos pessoas de carne e osso, que fazem as mesmas coisas que o público faz. Ninguém vai comprar pão de manhã pensando que precisa estar arrumada feito estrela de Hollywood, pq alguém do meio da dança pode avista-la no meio do caminho, não é? Já pensou, que horror? No dia seguinte está no orkut: Fulana de tal, bailarina de dança do ventre, foi vista de havaianas e sem maquiagem indo à padaria! Hahahaha É quase como se julgar uma celebridade perseguida por paparazzi das revistas de fofocas! Eu não vou deixar de ser eu mesma e tentar me "transformar" fora do palco em algo que não sou. Mas vou ter bom senso suficiente para deixar que o público entre no clima que quero criar, EM CENA, pois é lá que eu me transformo em outra pessoa. É óbvio que nem vestida de bailarina, nem no meu dia-a-dia, eu não quero que as pessoas me vejam em uma situação de relaxo, pernas abertas, cabelo desgrenhado. Não pela minha condição de bailarina, mas pela minha condição de mulher, e pelo mínimo de vaidade que tenho. As vezes penso que o porquê da dança do ventre carregar consigo essas regras de conduta, que outras danças não trazem com tanto rigor, tem relação direta com a origem da dança, com a visão romântica que o Ocidente criou do Oriente e, ainda, com a relação público-bailarina. Vou me explicar melhor: Quando estamos num palco, pela distância, pelo clima que o teatro dá, o figurino, a maquiagem ...o bailarino já se transforma em um ser diferente. Ao descer do palco, ele volta a ser uma pessoa normal e todos sabem disso. Quantas vezes já não vimos um bailarino ou um ator em cena e, ao ir cumprimenta-lo ao fim do espetáculo, pensamos: Nossa, como ele é baixinho!" ou "como ele é diferente de pertinho!". O palco nos faz crescer, nos envolve numa aura de "outro mundo", naturalmente. Já na dança do ventre, a maioria das apresentações são muito fisicamente próximas ao público. E estamos sempre com um sorriso fácil nos lábios, garantindo a interação com todos. Isso nos torna mais facilmente "seres humanos". O público consegue ver cabelos desalinhados, raiz sem tintura, a lantejoula faltando na roupa, a estria na barriga. Consegue também sentir cheiros, tem a bailarina a alcance do braço, podendo toca-la. Ela é muito mais real assim do que em cima de um palco. Portanto, como a cultura oriental (e nisso também a dança) chegou ao Ocidente envolvida pelo misticismo e pelo "surrealismo" da visão do europeu em relação ao Oriente (corrente orientalista), a dança oriental traz, além da dança em si, uma série de outros quesitos que servem para remeter o público a um Oriente inventado por nós (bem diferente do Oriente real, com todas as guerras e misérias), onde o clima de glamour é digno das lendas das mil e uma noites. Para entrar de cabeça no clima e se tornar um ser etéreo na dança do ventre há um processo mais complexo, que tem que começar antes da dançarina entrar em cena, com a decoração, os cheiros, a comida típica (isso na maioria das vezes, mas não é regra), remetendo o público ao universo orientalizado, até, enfim, chegar à dança. E depois dela o processo continua, com a bailarina mantendo-se como um ser mítico, que não pode ter contato com as pessoas, para que o público possa ir embora, ou continuar no local, ainda com a impressão de que aquela mulher só existe em seus sonhos. Eu acho que isso pode e deve ser feito de maneiras diferentes, e a única forma disso realmente acontecer (de vc conseguir criar a "mulher dos sonhos") é por meio de uma dança onde a bailarina se entregue de corpo e alma. Já consegui ver uma de minhas professoras como um ser etéreo, com ela dançando em sala de aula, sem o glamour da roupa, do local, etc, simplesmente porque a dança foi tão sublime que me tirou daquele "lugar" e me remeteu para onde eu (e principalmente ela!) queria. Após ela dançar, continuou entre nós, dando aula como sempre, e a bailarina daqueles minutos de dança não estava mais lá quando a professora voltou a dar aulas, conversar, arrumar o macacão no corpo, prender o cabelo, nos contar uma piada para animar a aula. A "bailarina" que dançou pra mim foi como uma manifestação. Que veio e foi embora, e usou aquele corpo ali para "chegar" até nós. Então, o que eu imagino, e isso serve para mim, mas pode não servir para outras bailarinas, é que esse ser etéreo nasce no momento em que eu piso no palco e morre quando minha dança acaba. Daí eu volto a ser a Shaide-pessoa de carne e osso, que tem regras de conduta e boa educação que me foram ensinadas em casa, por mamãe e papai. Em cena, eu não tenho regras. Tento ter a técnica necessária para que minha dança mantenha-se adequada àquilo que me proponho a fazer. Mas quando a Shaide-alma se manifesta, eu não posso responder mais pelos meus atos. Fora do palco eu respeito as minhas próprias regras de boa conduta, mas não me prendo numa redoma e tento ser o que não sou, porque assim diz alguma regra aí. Eu não vou até o público no intervalo porque isso acabaria com a minha concentração, e o público que está ali para me ver no palco merece ter o melhor que posso dar. Mas jamais me privaria de manter contato com minha platéia após um show, pq não tem nada mais gostoso para uma bailarina do que poder conversar com as pessoas, receber um feedback de seu trabalho e tornar-se alguém real para aqueles olhos que há minutos atrás apenas admiravam meu lado artístico, minha performance de deusa, de ser inatingível! Uma bailarina só se tornará um ser etéreo para o público por meio de sua dança. Nós podemos nos surpreender, por exemplo, ao ver uma amiga dançando. Aquela pessoa que tanto conhecemos desaparece e se traduz em outro ser enquanto dança. Isso acontece porque na dança nós deixamos nossa alma transparecer, e ela faz com que não exista corpo, roupa, cabelo, beleza...(daí vem a dúvida: então porque a necessidade de se ter um corpo perfeito pra dançar? Outro assunto corriqueiro, não?), mas só conseguirá alcançar esse resultado as bailarinas que conseguirem tocar seu público. Pode ser uma lady em cena e fora dela: isso não é pré-requisito para se transformar numa deusa que dança, né? Por este motivo, eu (opinião pessoal e intransferível) acredito que essas regras de conduta existam na dv e não nas demais danças por mais um motivo muito simples e que já é nosso velho conhecido: a má fama da dv! Não digo das regras de conduta básicas, daquelas que vem da educação e do bom senso que trazemos de casa e dentro de nós, e sim de certas "exigências" comuns como, por exemplo, a bailarina não poder ter contato com o público após o show. Certa vez uma amiga me contou o triste episódio de presenciar sua companheira de dança aceitando um convite, após o show de dv, para servir ao cliente como garota de programa. Então, até para nos diferenciar de certas classes de profissionais que existem por aí sob o codinome bailarina, esse tipo de condição/ regra é estabelecida. Manter o respeito junto ao público leigo, na dança do ventre, nem sempre é tarefa fácil. Nesses casos, eu acho que essas tais regrinhas vêm bem a calhar. Esse tipo de imagem distorcida da bailarina-objeto sexual inexiste em danças como o ballet, o flamenco, o jazz etc. Talvez por esse motivo o contato com o público não seja um obstáculo à essas outras modalidades da forma como é na dv. Imagine só: quando estamos assistindo um show de dv, o corpo está muito à mostra, a bailarina está muito próxima do público, os movimentos sinuosos, a troca de olhares entre público e bailarina - são situações que, mesmo quando não intencionalmente, podem dar margem à especulações horrorosas em mentes sujas da platéia!! Na dança do ventre, a platéia pode ser composta tanto por admiradores e conhecedores desta arte quanto por aqueles que têm o contato com a dança restritos àquilo que vêem nos programas televisivos (que bem sabemos, apresenta uma imagem distorcida da dv), ou por ter conhecimento deste por meio de profissionais que vulgarizam a dança e nivela a condição da bailarina à de mulher-objeto. Estou só citando exemplos, ok? Então, o público que conhece vai obviamente manter o respeito à bailarina como artista, enquanto que aquela outra categoria de público vai enxergar um corpo (pode até ser tocado pela arte, mas, na maioria das vezes, sabemos que já chega com a cabeça-feita, à espera do show de sensualidade prometido pela modalidade). Comececei em um assunto, passei por mais um ou dois e terminei em outro! Mas enfim... acho que deu pra dar uma passeada sobre o assunto “conduta de bailarino”... ou não?
A questão da idade e da discriminação na dança segue o mesmo padrão da questão do corpo perfeito. Criam-se padrões de mercado, que não necessariamente são verdades para o público (visto que mesmo com as ditas regras, há inúmeras bailarinas fora desse padrão, dançando e encantando por aí), mas que servem para facilitar a "venda" da dança para um público que não necessariamente está querendo ver arte, quee muitas vezes quer mesmo é ver um corpo bonito, vestindo uma roupa vistosa e realizando passos de dança que não necessariamente precisam passar do "bonitinho".
Isso é uma regra? Não, é claro que não. Temos várias bailarinas lindíssimas dançando maravilhosamente bem, mas temos, infelizmente, aquelas que se submetem às suas professoras e deixam-se usar por sua beleza, ou que não se importam em estudar porque sua beleza já lhes garante um lugarzinho ao sol!
A idade é um empecilho para quem pretende se enquadrar nas regras de mercado. Porque o mesmo público que quer ver um corpo bonito e nada mais, quer ver mocinhas jovens. Infelizmente para eles, que estarão perdendo o que de melhor a experiência traz a dança: a maturidade emocional, a melhor condução de interpretação e da expressividade...
Precisamos ir muito longe? Não, basta vermos que as melhores bailarinas, se já não têm quarenta, estão chegando lá. E com certeza têm vários anos de estrada. Começaram cedo, estudaram, se desenvolveram, erraram muito até aprender e hoje nos brindam com uma dança que, além da qualidade técnica, têm uma emoção que só quem convive com a dança dia após dia, por um loooooongo período, consegue expressar.
Um conselho é: temos que ir aonde tem quem realmente quer ver arte, e não corpos jovens e bem torneados. Pode ser que seja realmente difícil encontrar um lugar que nos aceite como somos, já que cada dia vemos mais gente se adequando aos padrões do mercado por pura falta de coragem de meter as caras e batalhar seu lugar, buscando nessa adequação ao padrão uma forma mais fácil de garantir seu sucesso.
Infelizmente para estas pessoas, seu sucesso vai ser efêmero como sua jovem idade... todos nós envelhecemos, nosso corpo sente o peso da idade...e neste caso, só ficam aquelas que realmente sabem dançar...com alma.