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Eu só vi as ghawazee dançando com snujs e lenços. Não tive a oportunidade de vê-las com flores ou bengala, mas sei algumas coisinhas a respeito disso e vou falar mais adiante. Antes, é bom lembrar que quando falo em dançarinas ghawazee, me refiro às antigas, em sua origem, no início do século XVIII, quando de sua chegada ao Egito, provenientes da Índia.
Até o início dos anos 70, ainda existiam trupes ghawazee originais trabalhando nas ruas do Cairo à maneira tradicional cigana, digamos assim. Atualmente, essas "ghawazee modernas", embora possam pertencer à linhagem familiar original, trabalham a dança de uma forma diferenciada das ghawazee antigas (basta ver o figurino com batas paetizadas e o uso de movimentos de outras danças, como as que costumam se apresentar no Festival do Cairo).
Bom, quando falei em dança ghawazee e falahi, estava, então, me referindo às origens, aquilo que hoje não temos mais acesso a não ser por documentação histórica (muita coisa escrita, pouca fotografada e quase nada em vídeo). Vou falar das duas separadamente pois tem pontos específicos em cada uma delas, Ok?
Como sabemos, as ghawazee são originárias do sul da Índia. Nesse país, há diversas danças populares que fazem uso de cestos e flores, portanto, a dança ghawazee das flores é um prolongamento de sua cultura original, certamente modificada com as novas influências, e também para a finalidade em questão. As danças na Índia são religiosas ou sazonais/cíclicas, enquanto que as ghawazee faziam uso da dança como forma de sustento de sua tribo (é bom lembrar que aquelas que não tinham talento para a dança, acabavam na prostituição, já que a gazyia era a responsável pelo trabalho remunerado familiar).
Com o passar do tempo, e com as viagens, acabaram por adicionar novos elementos, pois a função de sua dança era a de entretenimento e de uma maneira comercial, então deveria estar sempre preocupada com diversificação para atração de público. Nisso veio a dança do lenço ghawazee, que é uma adaptação da dança do lenço da Argélia, e a dança com bengala, que é uma absorção da cultura egípcia (ainda mais tendo em vista que após serem banidos do restante do país, o povo cigano se instalou na região de Said). E provavelmente, se estudarmos mais à fundo as tradições ciganas, vamos encontrar influências de outras culturas.
Originalmente sabemos que a tradição da dança ghawazee era com snujs, snujs estes que ainda são muito comuns na Índia e aparecem em diversas manifestações da cultura indiana (música, dança e teatro).
Quanto à dança falahi com as flores, não é preciso que uma dança seja uma tradição folclórica popularmente reconhecida pelos povos egípcios para que ela exista, não é? Vide aqui em nosso Brasil, onde temos várias danças esquecidas, escondidas, totalmente desconhecidas pela população brasileira, mas que configura a cultura de uma determinada região. Mesmo que essa tradição seja extremamente localizada e não tão popular, não deixa de fazer parte de nossa cultura brasileira em geral.
Quando me referi à dança das camponesas, estava falando de uma dança espontânea, não de uma dança representada, encenada e propagada comercialmente. Podemos lembrar das nossas lavadeiras que cantam para o tempo passar, e de tribos nômades, como os djinkas, onde as mulheres caminham por três horas pelo deserto africano em busca de água, e enquanto isso, cantam e fazem artesanato em palha.
A dança das flores provavelmente acontecia espontaneamente, sem movimentos prontos ou pré-determinados, como uma forma de passar o tempo e aliviar o enfado do trabalho. Alguém conhecedor desse costume, resolveu certamente transforma-la em dança-encenação, sendo uma representação do hábito de uma determinada região, ou de um determinado povo. Portanto, não necessariamente a dança das flores é vista como uma dança tradicional no Egito. Ao contrário do quece com o Said ou a dança falahi do jarro, que nasceram com certeza sem pretensões ao show business da dança do ventre, mas caíram nas graças das bailarinas e hoje se tornaram comuns.
Foufa El Faransawy, professora de danças folclóricas egípcias do Cairo, que participou da formação original da Reda Troupe, costuma ensinar as danças falahis de diversas maneiras que nós, do mundo da dv, jamais nem ouvimos falar, e agrega ao termo falahi não só aquilo que é dançado no ritmo falahi, mas várias danças rurais, digamos assim, danças praticamente esquecidas ou desconhecidas pelos próprios egípcios.
Há diversas danças das flores no Oriente.
A Falahi, egípcia, é uma dança das camponesas em época de colheita. Enquanto colhiam flores, cantavam e dançavam. A dança hoje representa um hábito comum das populações da região. Não há passos ou trajes específicos. Falahi quer dizer, aquilo que foi criado por um felahin. Felahin são os fazendeiros egípcios, então, as "bailarinas" em questão, eram pessoas simples, do povo, que trabalhavam para esses fazendeiros. Os trajes devem ser típicos, folclóricos: galabias, djelabas e caftans, com lenços amarrados na cintura é a melhor pedida.
A dança das flores ghawazee era a realizada pelas ciganas egípcias nas ruas das metrópoles para ganhar dinheiro para o sustento de sua tribo. As ghawazee executavam diferentes danças, com lenços, cestos de flores (que iam distribuindo ao público que juntava ao seu redor, e na sequencia utilizavam as cestas para recolher a gratificação pela sua dança), e principalmente com snujs.
A dança ghawazee em geral é ágil, vigorosa, com muitas batidas de quadril. O traje ghawazee é um vestido específico, costuma ser mais curto, terminando um pouco abaixo no joelho, com as pontas em bicos, moedas adornando toda a volta da saia, torso totalmente coberto, sem barriga de fora, ams com formas ajustadas. As mangas, geralmente curtas, também em bicos e com as moedas para adorno. Muitos arranjos na cabeça: flores, moedas, turbantes.
A dança das flores de Jaladryia, uma região na árabia saudita, é também uma forma de representação e tem esse contato com o público. Na verdade, não é conhecida por dança das flores, e sim, dança do cesto, pois nele pode haver não apenas flores, mas damascos e incensos, que as bailarinas vão distribuindo ao público. A dança geralmente inicia com as bailarinas umas enfeitando as outras companheiras com as flores, depois vão ao público distribuindo às oferendas.
Ao contrário da dança ghawazee, é uma dança totalmente delicada, apenas com trabalhos sutis de braços e deslocamentos. Não há movimentos de dança do ventre. Nessa dança, os trajes são típicos da região, caftans extremamente ricos em bordados, cores, como as tobe el nacha-ats da naisha, outra dança típica da arábia saudita, que se assemelha ao khaleege, embora tenha um repertório de movimentos diferenciados e outras particularidades.
Khaleege, vamos lá!
Antes de tudo, o termo khaleege significa golfo, mas o nome da dança é Racks el Nachaat (ou nasha’at... ou ainda nasha’ar). Utiliza-se o nome khaleege genericamente para definir tudo que está associado à cultura da região, como a dança, a música, o ritmo. O termo define até mesmo a culinária da região, então a nomenclatura mais apropriada para a dança não é esta, por ser muito abrangente, e como temos pouco verdadeiro conhecimento da cultura daquela região, é possível que outras danças folclóricas possam ser identificadas no mesmo caldeirão cultural pelo nome de khaleege (como já é sabido que existem danças masculinas com essa mesma terminologia). Então, eu costumo usar a definição que me parece ser a mais adequada: racks el nachaat.
Tobe el Nachaat é o traje, e o soudi ou saudi, o ritmo mais tradicional daquela região, não utilizado apenas para a dança. E além deste, outros ritmos são comumente utilizados por lá, como ayoub, malfouf, portanto, esses outros ritmos 2/4 também podem ser usados na racks el nashaat.
O cabelão pode até ser impreescindível à dança, mas ele não necessariamente precisa ser original. Na arábia saudita, principalmente na região de Janadryia, há uma dança muito semelhante ao raks al nachaat chamada naish, naisha ou racks al naish. Também utiliza-se o tobe el nachaat, mas aos cabelos naturais da bailarina são adicionadas tranças falsas, para que eles pareçam ainda maiores e dêem mais movimento à dança. Além das tranças, também são amarradas aos cabelos longas fitas coloridas, que também aparecem no pulso. E no pulso e tornozelos também são utilizados os kulkaals, que são pulseiras e tornolezeiras de guizos (parecidas com as utilizadas em dança indiana, e que aparecem também nas ghawazee).
Os movimentos da naisha e da raks el nachaat são praticamente os mesmos. Há na naish, talvez, uma maior liberdade na busca dos movimentos dos braços, já que não há convencionalismos daquilo que seja certo ou errado. Na racks el nashaat original, obviamente também não há, afinal de contas, é uma dança folclórica, mas infelizmente as tradições khaleege vêm sendo passadas ao ocidente de forma errônea e cheia de limites e regras pré-estabelecidas que não fazem parte do contexto original.
Na naisha, os movimentos de pés são mais marcados e também há muitas batidas de pulsos, um contra o outro ou em diversas partes do corpo, para que os guizos possam "aparecer" e acompanhar o ritmo da música.
A raks el nashaat é a dança típica mais tradicional do Sultanato de Omã, por exemplo, que tem uma festa anual apenas para celebrar essa dança. Todas as mulheres da cidade vão as ruas com suas tobes coloridas e seus cabelões, e dançam juntas. Imagina só o que não deve ser maravilhoso ver isso? Uma cidade inteira dançando???? Uau!